• Cintia Almeida

Heitor, do prognóstico ao aprender a viver um dia de cada vez


Em maio de 2017, estava no sexto mês de gestação do Heitor e fui fazer o 2º USG morfológico. Durante o exame, o médico percebeu que as mãozinhas do do nosso bebê estava em formato de garra e que havia dilatação no rim. Pediu para falarmos com o obstetra. Seria necessário que investigasse com um geneticista uma suspeita de síndrome rara.


No dia seguinte, fomos ao consultório do obstetra e a indicação é repetirmos o ultrassom. Fizemos ali mesmo na clínica e o médico que realiza vê outras alterações. A suspeita é síndrome de Edwards. Algo fatal, incompatível à vida.


Ao sair da USG, Dr Walmir já está fora do consultório. Ligo para ele. Nessa altura, ele já tinha conversado com o Dr Marcos Felix que realizou o exame.

Diz que há grandes chances de ser a tal síndrome. Que preciso fazer um exame chamado cariótipo fetal para ter certeza... Há 2 procedimentos para o exame. Um deles é colhendo líquido da placenta e há risco de aborto. O outro é pelo sangue da mãe, mas nenhum convênio cobre e custa cerca de R$2 mil.


Parece que o chão abriu embaixo de nossos pés. A dor rasga nosso peito. Eu não consigo parar de chorar... me sinto atropelada por aquela notícia.

Saio do consultório e vou para casa da da amiga que sempre me deu suporte em oração. No caminho, ligo para outra amiga e choramos juntas... ela, que trabalha na UTI neonatal, sabe bem o que é a síndrome de Edwards. Coisa que antes nunca tinha ouvido falar.

Chego na casa da Silmara e esperamos a Denise, que está a caminho.


Enquanto isso, outras amigas começam a ligar nos laboratórios pra saber quais fazem o tal exame pelo sangue da mãe e qual o valor.

Encontram o mais barato por R$ 2mil. Começam a movimentar o pessoal da igreja para levantar o dinheiro para o exame..


Na oração, o clamor é pela revogação da sentença... Heitor é consagrado à Nsa Senhora de Fátima

Meu coração sangra...

Não consigo compreender. Pedi a Deus por essa gestação. Tive um sinal de Nsa Senhora... Não entendo por que toda aquela alegria transformada em dor.


O cariótipo fetal


Não tenho condições psíquicas para ir trabalhar e meu médico me afasta por 10 dias.


É sexta, 12 de maio. Eu e Marcos almoçamos e saímos rumo ao laboratório. A essa altura, a movimentação dos amigos já levantou todo o dinheiro do exame, ao ponto de termos que pedir para que parem de fazer depósitos na nossa conta.

Às 15h, hora da misericórdia, estou colhendo o sangue para o exame. Marcos pede licença para a enfermeira e ora antes da coleta. O resultado do exame sairia em até 10 dias.


Vamos à missa perto de casa e, vendo as irmãs da Arca de Maria, resolvo escrever um bilhete pedindo orações. Deixo meu telefone.


Chegando em casa, resolvo mandar um áudio para os membros da missão Jovens Sarados, pedindo orações.

Começa uma grande movimentação de oração... e eu vou tentando digerir tudo que estava acontecendo.


Lembrei da Palavra que o Senhor me deu em 2011. Era início da missão Jovens Sarados de Osasco que, naquele tempo, se reunia na casa de uma comunidade. Era um sábado, dia de missão e resolvi ir para lá. Quem pregou foi o fundador da comunidade que acolhia os sarados de Osasco. Após a pregação, ele orou por cada pessoa. Quando chegou em mim, perguntou: você tem filhos? E eu disse que não. Nem namorado tinha. E ele me disse então: Deus está me dizendo que vai te dar um filho que te trará as alegrias e as dores de Nossa Senhora.

Guardei aquilo no coração e passei a rezar com o que tinha ouvido. Até que no dia 14/11/11, o Senhor me deu Isaías 49,1-6 que diz:


Ilhas, ouvi-me; povos de longe, prestai atenção! O Senhor chamou-me desde meu nascimento; ainda no seio de minha mãe, ele pronunciou meu nome. Tornou minha boca semelhante a uma espada afiada, cobriu-me com a sombra de sua mão. Fez de mim uma flecha penetrante, guardou-me na sua aljava. E disse-me: Tu és meu servo, (Israel), em quem me rejubilarei. E eu dizia a mim mesmo: Foi em vão que padeci, foi em vão que gastei minhas forças. Todavia, meu direito estava nas mãos do Senhor, e no meu Deus estava depositada a minha recompensa. E agora o Senhor fala, ele, que me formou desde meu nascimento para ser seu Servo, para trazer-lhe de volta Jacó e reunir-lhe Israel, (porque o Senhor fez-me esta honra, e meu Deus tornou-se minha força). Disse-me: Não basta que sejas meu servo para restaurar as tribos de Jacó e reconduzir os fugitivos de Israel; vou fazer de ti a luz das nações, para propagar minha salvação até os confins do mundo.

O resultado do cariótipo


Diariamente, com medo, acessava o site do laboratório para ver se o resultado estava lá. Naquela sexta-feira, dia 19/05/17, fiz o mesmo. E o resultado estava lá. Chamei o Marcos e vimos juntos: positivo para síndrome de Edwards.


Pela segunda vez, o chão se abriu à nossa frente. Uma dor de morte atravessou meu coração. Impossível explicar com palavras. Cheguei a sentir dor física...


Até ali, eu pedia a Deus que o diagnóstico desse negativo pra síndrome. Dizia para Deus que não teria estrutura para suportar um resultado positivo.


Entendi que "limite" é só um lugar que a gente ainda não foi. Só Deus sabe qual é nosso limite...


Chorei muito. Muito mesmo. Mas sobrevivi apesar da dor gigantesca que atravessava a minha alma...


Mandei mensagem para o obstetra e ele pediu que eu fôssemos ao consultório na segunda. Certamente para ouvir a sentença de morte da medicina sobre nosso primeiro filho.

E assim aconteceu. Tudo que já tínhamos lido e ouvido, foi repetido naquela segunda-feira. Que a síndrome é incompatível à vida, que o óbito poderia acontecer ainda ni útero, que não há registros de meninos que sobrevivam mais que alguns dias. E que, inclusive, a interrupção é permitida por lei neste caso.


Mas, por incrível que pareça, naquele dia não me abalei. Veio sobre nós uma Graça sobrenatural. Ficamos firmes em Deus. Foi quando comecei a aprender a viver um dia de cada vez.






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