• Cintia Almeida

Heitor em sua breve existência

Na sexta, após o nascimento, acordo com a enfermeira trazendo mais medicação. Sinto as dores da cesariana. Só penso em ir logo ver o Heitor. Tomo banho com dificuldade e me arrumo para conseguir tocar meu filho.


Vamos eu e Marcos. Ele me leva na cadeira de rodas. Entro na UTI e ele está lá na última câmara. Tão pequenino, tão frágil, em meio a fios e tubos.


Pudemos tocá-lo e ele respondia aos estímulos: levantava as perninhas e bracinhos. Abriu os olhinhos... E o Senhor nos inspirou a conversar com ele, a dizer o quanto o amamos.


Fizeram diversos exames. O quadro é bastante grave mas eu não presto muita atenção no que as médicas dizem... só quero viver esse tempo com ele. Seja quanto tempo for.


No sábado, vivemos momentos de tensão já que, mesmo a ventilação do aparelho estar na velocidade máxima, os pulmões do Heitor não correspondem. A oxigenação foi a zero e achamos que ele estava indo para Deus. As médicas o puseram no meu colo, apoiado em travesseiros. Continuamos a rezar, a cantar e a dizer o quando o amamos. Aos poucos, a saturação voltou ao normal.


Desci para almoçar e, por indicação das enfermeiras, fui até a sala de aleitamento. Lá precisei passar por uma massagem nos seios para evitar que o leite empedrasse. Chorei muito ali. Mas, maior que a dor física, era a dor na alma por saber que não teria o privilégio de amamentar o Heitor.


Fui para o quarto e chorei muito. Clamei a Deus que intervisse. A dor era insuportável... Eu já tinha entregue meu filho para Deus. Eu o liberei para que Ele fizesse a vontade Dele! Só não queria ver o Heitor sofrer em meio aqueles fios. Porque eu sei que no céu não há dor, não há síndrome, não há tubos. Lá é vida plena. E era o que pedia a Deus desde o diagnóstico: vida plena. Fosse aqui, caso o Senhor quisesse realizar o milagre físico ou no céu, caso o Senhor quisesse levar o Heitor.


Me refiz e voltei à UTI, onde permanecemos eu e Marcos até o final do dia. A inspiração era rezar o terço que o padre Jucemar nos indicou. E repetíamos: Jesus, eu te louvo pela vida do Heitor. Heitor, a mamãe te ama. Heitor, o papai te ama...


E a música que sempre cantava para ele era aquela com a qual acordei na quinta:


Eu tenho saudades de Ti
Saudades do meu lugar eu sei
Que eu não fui feito pra este mundo
Tenho esperado a muito tempo te encontrar
Vem me buscar meu Pai
Ansioso eu espero o dia
Da Tua vinda gloriosa eu sei que Tu virá

Sempre oro pelas mães das UTIs. Sei bem o que é passar dias ali.





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